No início deste ano, as empresas e consumidores de energia solar têm enfrentado dificuldades para obter financiamentos de projetos fotovoltaicos junto aos principais bancos do país. Esse problema tem sido apontado como um dos principais obstáculos que têm limitado as vendas do setor.
Essas dificuldades são resultado de vários fatores socioeconômicos que têm gerado receio nas instituições financeiras em conceder crédito para aquisição de bens e serviços, incluindo a energia solar. Parte desse receio está relacionada à crise enfrentada pelas Lojas Americanas, que acumularam dívidas bilionárias com instituições como Bradesco e Santander, importantes credores da rede de varejo.
Além disso, a manutenção da taxa básica de juros em 13,75% ao ano pelo Copom (Comitê de Política Monetária) e as instabilidades políticas causadas pela troca de governo também contribuíram para que os bancos se tornassem mais rigorosos na aprovação de qualquer tipo de financiamento.
De acordo com Ayres Bernardes, diretor de operações da Sol Agora, uma fintech que oferece crédito para o setor solar, praticamente todos os bancos do Brasil ajustaram seus critérios para tornar a liberação de crédito mais rigorosa, devido ao receio de inadimplência diante do cenário macroeconômico. Uma dessas ações foi a exigência de uma pontuação mais alta no score dos clientes, que leva em consideração os hábitos de pagamento e é usado pelos bancos para decidir sobre a liberação de empréstimos ou financiamentos.
No entanto, mesmo com um bom score, muitos consumidores têm tido seus pedidos de crédito negados por causa do comprometimento da renda. Por exemplo, se um cliente com um bom score tem uma renda mensal de R$2.000 e deseja fazer uma parcela de R$1.000, ele estaria comprometendo 50% de sua renda. Se o limite imposto pelo banco é de 30%, o crédito não seria aprovado, mesmo com um bom score.
Bernardes ressalta que alguns bancos experimentaram aumento na inadimplência, incluindo atrasos por parte de consumidores que adquiriram sistemas de energia solar. Isso justifica o receio dos bancos em emprestar dinheiro para consumidores do setor.
Esses problemas têm impactado diretamente os integradores de energia solar, que enfrentam dificuldades burocráticas, taxas elevadas e a falta de opções para seus clientes.
O aumento da taxa de juros nos últimos anos tem afastado a possibilidade de financiamento para muitas pessoas que desejam adquirir sistemas de energia solar. Isso tem impacto direto nas vendas dos sistemas.
Eduardo Nicol, integrador e diretor-geral de operações da Renew Energia, afirma que o crescimento da taxa de juros tem trazido dificuldades para empresas que atendem clientes de menor poder aquisitivo. Os clientes de alta renda têm optado por outras formas de pagamento, como pagamento à vista ou parcelamento sem juros no cartão de crédito. Já aqueles que atendem clientes das classes B, C e D têm sentido o impacto das exigências dos bancos.
Embora as altas taxas de juros sejam um problema, Nuno Verças, diretor-geral da Sol Agora, afirma que a aquisição de sistemas fotovoltaicos ainda é um investimento muito atrativo. Segundo ele, embora as taxas de juros estejam mais altas, o preço dos sistemas diminuiu consideravelmente, o que permite que o valor da parcela do financiamento seja equivalente ao valor da conta de luz. Assim, no final das contas, os juros não têm um grande impacto para o consumidor.
Verças ressalta que não há falta de liquidez no mercado, mas os bancos estão mais cautelosos devido ao cenário de incertezas macroeconômicas.
Alexandre Ferreira, CEO da Bluesun Serviços Financeiros, não acredita em uma melhora significativa na aprovação de crédito no segundo semestre por parte dos grandes bancos. No entanto, ele acredita que o cenário não será tão ruim como no início do ano. Os grandes bancos dificilmente mudarão sua política de crédito para o setor de energia solar, pois não dependem desse mercado. Já os bancos especializados em financiamento para sistemas de energia solar podem adotar uma abordagem mais flexível na aprovação de créditos.
Bernardes revela que a Sol Agora está estudando a possibilidade de flexibilizar a liberação de crédito, pois a empresa percebeu que sua carteira está estável.
Verças complementa que conhecer o mercado de energia solar faz toda a diferença e acredita que no segundo semestre começará a haver um retorno nas liberações de crédito, embora não de forma imediata. Ele está otimista em relação ao médio prazo.
Fonte: Canal Solar
Texto: André Stock
Diretor Financeiro da Voltes Energia Solar Cascavel